A GAITINHA

Edmundo era dono de si, das flores e de tudo que era chamado vida. Dizia que cada pássaro era como seu próprio avião, flutuava entre os ramos do campo como se estivesse dançando uma valsa. Era um sonhador… E isso ninguém pode contestar.

Era conhecido por nunca ter visto uma mulher nua, mas imaginava as nuances das belas faces de todos os seres através do Céu. Ficava horas contemplando cada nuvem, sentado em um banquinho de madeira, com o velho cão Chico ao seu lado.

Um ser comovente.

Diziam que ele vivia muito solitário, mas o velho não prestava muita atenção nisso. Estava sempre cantando alguns versinhos sobre as flores, as árvores, os animais e as cores.

Adorava o arco-íris. Uma vez ele correu quilômetros para buscar o prometido pote de ouro, mas percebeu que era uma corrida que já havia perdido. Não se pode correr com os desejos, dizia ele.

Sua sobrinha Maria, menina cruel que era, disse ao velho em pleno dia de Natal que havia um espírito em seu quarto. Edmundo rezou durante toda a noite para que a assombração deixasse o lugar, veja que maldade… Pobre homem, não podia com fantasmas!

A coisa mais linda era a sua gaitinha. Quando ele tocava todos paravam para ouvir. Dizia que tocava valsinha, samba e outras variações, mas acredite, só se ouvia a mesma sequência de notas. Era como se ele entendesse das conexões da vida, como se soubesse que cada partícula estava presente naquela canção.

Essa gaitinha o seguia por todo lado. Nas reuniões de família ninguém falava no assunto, já estavam fartos da sua música… Que era valsinha, que era samba, que era um pouco da loucura dele.

O seu irmão, Edmar, já estava cansado da mesma ladainha, vivia brigando com o pobre velho por ser tão louco… Edmundo parecia não compreender, para ele loucura era felicidade.

Andava muito de bicicleta, ia na venda buscar seu cigarrinho e sempre trazia para as sobrinhas rapaduras de leite, deliciosas rapaduras de leite. Suas conversas eram sempre agradáveis… Tagarelar era seu sobrenome.

Ficava repetindo sem parar que estava velho, cheio de rugas. Perguntava se sentiriam a falta dele quando partisse, as pessoas achavam aquilo engraçado. Ele apenas sentia. Sentia uma alegria pela vida, pelas coisas.

Era um doce de pessoa, assim como as rapaduras e o cão Chico… Poxa, esqueci do Chico.

Ele ainda está ao lado do banquinho.  Cão bom e leal que sempre foi, nunca deixou o velho Edmundo sozinho.

Pena que as coisas deixam de existir em sua consistência…

Edmundo, dono do mundo, dono de si. Dono da gaitinha mais querida dessa nossa existência. Foi ele que não apenas viveu essa vida, mas que fez a vida viver ele.

Coisa linda de lembrar.

Coisa linda de viver.

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